Seu propósito não está à venda
- Aristides Ianelli Junior
- 12 de abr.
- 5 min de leitura
Atualizado: 16 de abr.
Por Aristides Ianelli Junior
Se você entrar agora em qualquer rede social profissional, não vai demorar três minutos para esbarrar em alguém dizendo que o propósito de vida dele é "levar o outro ao máximo potencial", ou "fazer com que meus clientes atinjam suas metas", ou ainda "transformar a vida das pessoas por meio do meu método". Resista, Seu propósito não está à venda.
Sendo muito honesto: isso não é propósito. Isso é peça comercial.
Existe uma perversidade silenciosa nesse discurso que virou moda. A pessoa usa o outro para se monetizar, embala isso num papel de presente chamado "propósito", e ainda faz o outro acreditar que encontrou ali um guia espiritual ou de carreira. O cliente, que muitas vezes está fragilizado ou perdido, acha que encontrou alguém com uma missão divina de ajudá-lo, quando na verdade está apenas sendo usado como ferramenta de lucro e validação. O nome disso é marketing.
E não há problema nenhum em fazer marketing, desde que as cartas estejam na mesa. O problema real é sequestrar uma das palavras mais
profundas da experiência humana para vender mentoria ou coach. É o sujeito que se sobrepõe ao outro*, usando a vulnerabilidade alheia para construir o próprio palco. *(leia o texto O Silêncio dos Idiotas )
Propósito é algo muito mais íntimo, muito mais silencioso e muito menos vendável. Ele é a materialização da vocação, daquilo que você nasceu para ser e fazer. Não é uma frase de efeito criada por uma agência de publicidade para colocar na bio do Instagram.
Se a gente olhar para trás, para a base do pensamento ocidental, a filosofia e a psicologia já nos deram as chaves dessa porta há muito tempo. Sócrates já avisava lá atrás: "conhece-te a ti mesmo". Ele não disse "invente-se a si mesmo" ou "crie uma persona de sucesso".
Propósito não se inventa, se descobre. É um trabalho de escavação, não de maquiagem. Platão, falava sobre o daimon — a ideia de que cada alma escolhe uma vocação antes de nascer e recebe um guia para não esquecer esse chamado ao longo da vida. Muito depois, Jung chamou esse processo de individuação: a jornada dura e necessária de tornar-se quem de fato se é, tirando as máscaras que a sociedade nos obriga a usar para sermos aceitos. E o psicólogo James Hillman resgatou essa mesma raiz em "O Código da Alma", defendendo que cada pessoa nasce com uma imagem interna, um
chamado único que precisa ser respondido, assim como a semente de uma árvore já tem a árvore inteira dentro dela.
Nenhuma dessas cabeças brilhantes disse que o propósito de alguém era bater a meta do trimestre ou ser o funcionário do mês.O grande nó que a maioria das pessoas não consegue desatar é a confusão entre vocação e profissão. Profissão, trabalho, atividade, cargo — tudo isso é apenas meio. É ferramenta para expressar a sua conduta no mundo. A vocação não mora no crachá que você pendura no pescoço. Ela mora na sua conduta.
É por isso que tem tanta gente trocando de emprego, de área, de cidade, de casamento, achando que vai finalmente se encontrar, e continua vazia. Trocar de profissão não resolve absolutamente nada se a conduta continua incoerente com quem você é. O problema
nunca foi o palco em que você está pisando. O problema é a peça que você está encenando. Se você não sabe quem é, qualquer roupa vai apertar.
Eu não tenho a pretensão de dizer que tenho tudo isso resolvido. Pelo contrário. Eu ainda não tenho explícita, desenhada em letras garrafais na minha cabeça, qual é a minha vocação definitiva. Mas eu sei qual é o meu propósito: ser a melhor versão de mim a cada dia.E preste atenção, isso está ligado ao "como", não ao "quê". Eu acredito firmemente que o propósito tem sido a ferramenta que mais me aproxima da minha vocação, mesmo sem eu saber o nome completo dela ainda. O daimon age antes de ser nomeado. A materialização
da vocação acontece pela conduta coerente em qualquer coisa que eu faça — seja vendendo consórcio e investimentos, seja gerenciando contratos de estágios, seja estudando Psicologia agora, aos 51 anos de idade, seja como pai de três filhos ou como marido. Não é a ação em um local específico que me define. É a conduta que eu carrego para todos os locais que eu entro.
O perigo de não entender essa dinâmica é transformar o propósito numa prisão. O propósito não pode, em hipótese alguma, ser uma camisa de força. A rigidez de quem transforma a busca pelo sentido em um passo a passo, num guia definitivo de dez regras, num mapa infalível — como fazem tantos gurus e escritores de autoajuda e coaches — mata o nosso livre-arbítrio.
E sem livre-arbítrio, o caminho fica contaminado. Você deixa de agir porque aquilo faz sentido para a sua alma e passa a agir pelo "tenho que ser" ou "tenho que fazer". O propósito autêntico é uma escolha renovada todos os dias, não uma sentença que você
cumpre para agradar uma plateia imaginária.
Nessa escolha diária, o erro é visita certa. E ainda bem que é assim. Errar já está implícito na condição de ser humano. Essa busca desesperada pela perfeição que nos vendem hoje só serve para nos tirar da nossa própria natureza, nos afastar do aprendizado, do
crescimento real e do reconhecimento fundamental dos nossos limites.
Buscar a perfeição é, no fundo, andar na contramão de Deus — ou seja lá como você chame aquilo em que acredita. Se Deus criou o ser humano limitado e falível, a limitação é parte do projeto. Não é defeito de fábrica. Aceitar que vamos errar no caminho não é fraqueza, é a única forma de continuar caminhando sem enlouquecer. A perfeição é estéril. É no erro, na falha, na rachadura que a luz entra e que a gente descobre do que realmente é feito.
E como a gente sabe que está no caminho certo? Como saber se não estamos apenas nos enganando de novo? Existe um teste silencioso da vocação.É na vocação que vivemos bem, apesar das dificuldades, do cansaço e das dores. É nela que ganhamos potência de vida. Quando agimos alinhados com o nosso propósito, a coisa acontece de forma natural, simples, sem precisar de mil ferramentas, planilhas de controle, guias de produtividade, métodos mirabolantes e artifícios para nos manter motivados.
Se a sua vida está fluindo com naturalidade, mesmo que o momento seja de dor, de crise ou de muito trabalho duro, a vocação provavelmente está ali — ainda que você não saiba dar um nome bonito para ela. A energia se renova de um jeito que a lógica não explica.Agora, se está tudo forçado, artificial, pesado demais, se você precisa de um arsenal de métodos, de frases motivacionais no espelho e de muito aparato para se sustentar de pé na segunda-feira de manhã, preste atenção. Provavelmente é só trabalho disfarçado de
propósito. É só o ego tentando convencer a alma de algo que ela já sabe que é mentira.
A simplicidade é um sinal claríssimo. Essa pode ser a maior pista de que a sua vocação está na parada. Quando você parar de tentar impressionar o mundo com frases de efeito para vender o seu peixe e começar a ouvir o seu próprio barulho interno, o caminho se abre. Não porque ficou mais fácil, não porque os problemas sumiram. Mas porque, finalmente, o caminho é o seu.




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