Dois mundos, uma frase: por que vocês não se entendem?
- Aristides Ianelli Junior
- 17 de jun.
- 3 min de leitura

Dois mundos, uma frase: por que vocês não se entendem?
Por Aristides Ianelli Junior
A maioria dos ruídos num relacionamento não vem de maldade, descaso ou falta de amor. Vem de algo muito mais simples e silencioso. Vem de interpretações diferentes sobre a mesma coisa. São dois mundos operando sobre a mesmíssima frase.
Isso é da natureza das coisas. Cada um construiu o seu jeito de ver o mundo de forma diferente. Não é um defeito a ser consertado, mas uma realidade que a gente precisa compreender. Só que quando a gente não saca isso, a convivência tropeça feio.
A Elaine, minha esposa, tem um jeito de ver as coisas. Eu tenho outro. E às vezes a gente esbarra.
Um exemplo bobo. A Elaine olha pra parede e solta: "nossa, surgiu um trinco na parede" ou "você viu como a parede está manchada?". Eu ouço. Faço que sim com a cabeça. Mas aquilo não é prioridade pra mim naquele momento. Não me afeta. E eu não percebo que afeta a ela. No fim das contas, ela estava pedindo o reparo. Eu apenas concordei com a informação de que havia um trinco. Ela fica chateada que eu não arrumei e dá aquela esfriada. Eu não percebo e acho que ela esfriou sem motivo. Dois mundos.
Mas o melhor exemplo foi o da pintura.
Um dia a Elaine me pergunta, com aquele jeito tranquilo: "acha que dá pra você passar uma tinta aqui na sala?". Na mesma hora eu olhei em volta e a minha cabeça começou a calcular. Pensei: preciso comprar material, passar massa corrida, lixar os defeitos, cobrir os rodapés e as molduras de gesso, empapelar os batentes. E o pior: retirar um painel gigante da sala e refazer toda a instalação elétrica embutida.
Eu não falei nada. Precisava pensar, achar vontade e me programar. Demorou semanas. Ela começou a dar indiretas, ficou frustrada. Até que um sábado eu acordei cedo e comecei. Tirei os móveis, desparafusei o painel pesado. Ela acordou às 9:00h, olhou pra sala e levou um susto: "O que você tá fazendo? O que o sofá está fazendo lá fora? Por que você tá tirando o painel???"
Eu, já suado e com pouco humor, respondi: "Você pediu para pintar, não pediu?" Ela arregalou o olho: "Nããão, era só passar uma tinta, amor!"
Para ela, pintar era pegar a tinta, o rolo e passar nas paredes. Simples, rápido. Para mim, pintar era fazer o serviço completo, preparar tudo. Não existe fazer o negócio pela metade.
Eu me senti pressionado a gastar um fim de semana inteiro de trabalho que ela nunca pediu. Ela ficou frustrada com a demora de algo que, na cabeça dela, levaria uma tarde. Dois mundos sobre a mesma frase.
Isso respinga em tudo, até na intimidade. O jogo da sedução e do desejo é uma delícia, ir descobrindo o outro na tentativa e erro é um afrodisíaco natural. Mas se o outro não entendeu o seu desejo ou o seu limite, uma conversa aberta, sem pudores e muito clara precisa acontecer. Se você não fala, novas frustrações e barreiras vão surgir.
Aí entra um mecanismo curioso. Sem jeito ou coragem de dizer o que realmente quer, a pessoa faz uma piadinha, solta uma gracinha. Quando o casal flui bem, ótimo. A gente ri e entende. Mas muitas vezes essa "piadinha" acaba despertando sentimentos, ações e reações que a gente não queria.
Não estou dizendo que a gente tem que viver na função lógica o tempo todo. De forma alguma. Ninguém aguenta um relacionamento que parece uma planilha de Excel. Mas a gente precisa primeiro conhecer, explicar, pedir, recusar. Precisa dar nome aos bois. Com o tempo, a gente cria uma espécie de "caixa do casal". Um lugar onde essas coisas acontecem e se resolvem naturalmente, porque o aprendizado grosso já foi feito.
Quando o casal chega nessa sintonia e os dois estão bem, um olhar já diz quase tudo. A piadinha, em vez de chatear, traz uma lembrança gostosa. Cria mais cumplicidade. É aquela sensação boa de quando vocês estão numa festa: apenas um olhar do outro já mostra o quanto vocês estão a fim de ficar ou de ir embora, juntos, sem nem precisar abrir a boca.
Hoje eu e a Elaine somos diferentes. A gente conhece e atualiza nossas expectativas e limites. Sempre que surge algo novo, a gente pergunta. A gente elabora. Não ficamos mais imaginando o que o outro sente ou pensa. A gente simplesmente pergunta.
E se você quer entender por que vocês interpretam diferente e o que está por baixo disso tudo, no próximo texto eu explico. Fique ligado no Canal Na Raiz que logo eu posto lá!







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