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O Silêncio dos Idiotas

  • Foto do escritor: Aristides Ianelli Junior
    Aristides Ianelli Junior
  • há 6 dias
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

Borboleta sobre a boca de uma mulher
Por Aristides Ianelli Junior

Descobri recentemente que a palavra “idiota” teve seu sentido original sequestrado.

Hoje, a gente usa para ofender, para apontar uma falta de inteligência. Mas na Grécia Antiga, de onde ela vem, o “idiotes” não era o burro. Era o cidadão que vivia apenas para seus assuntos privados, fechado em seu próprio umbigo, alheio à vida da cidade,

a “polis”. O oposto do idiota era o “político” — não o profissional que a gente conhece, mas o cidadão que entendia que sua vida estava amarrada à vida de todos.


Desde que aprendi isso, não consigo parar de ver idiotas por toda parte. E percebi que a idiotice, nesse sentido original, tem camadas. Como uma cebola de irresponsabilidade e alienação.

Na camada mais externa, e talvez a mais inocente, está o idiota cego. Ele simplesmente não sabe que existe um coletivo. Nasceu e cresceu num casulo tão grosso que nunca desenvolveu a consciência de que suas ações ecoam para além de si. Ele não é mau, ele só não enxerga. Seu dano não vem da maldade, mas da ausência completa de noção. É a criança crescida que nunca entendeu que o mundo não é uma

extensão do seu quarto.


Um pouco mais para dentro, encontramos o idiota que ignora. Este é mais sofisticado. Ele sabe que o meio existe. Ele vê a cidade, ouve o barulho da rua, percebe os problemas. Mas ele escolhe, conscientemente, não se envolver. É a indiferença como projeto de vida. Ele sabe que o barco está afundando, mas está ocupado demais

polindo os talheres de prata da sua cabine. Ele não é cego, ele só usa um tapa-olho de luxo.


No núcleo, no coração da cebola, mora o mais perigoso de todos: o idiota que se sobrepõe. Este não apenas ignora o coletivo; ele acredita que pode existir acima e independente dele. É a arrogância da autossuficiência absoluta. Ele se vê como uma entidade separada, cujas necessidades e desejos são tão importantes que as regras do

jogo não se aplicam. Ele não apenas fura a fila — ele acredita que as pessoas enxergam nele uma superioridade tão óbvia que lhe autoriza, automaticamente, a passar na frente. Sua crença nessa aura especial é tão grande que, se o barco estiver afundando,

ele genuinamente acredita que é dever de todos ali trabalhar para salvá-lo em primeiro lugar. Não por maldade, mas por uma lógica delirante onde sua sobrevivência é, por definição, o bem maior para o próprio coletivo que ele despreza.


Mas essa idiotice não se manifesta só na relação com o mundo lá fora. Existe um outro eixo, talvez o mais trágico de todos: o idiota de si mesmo. É aquele que nunca se olha, que vive alienado do próprio interior. Ele não sabe o que sente, não entende por que age como age, não conhece seus próprios medos e desejos. Ele é um estranho para si mesmo, um turista na própria alma. E, na maioria das vezes, o idiota social e o idiota

de si mesmo vêm no mesmo pacote. Afinal, como alguém pode se conectar com os outros se nunca se conectou consigo mesmo?


O idiota então seria um egoísta? A resposta não é tão simples, porque a gente costuma jogar o egoísmo numa vala comum de coisas ruins, e não é bem assim. Quem deseja algo apenas para si em detrimento do outro, sem se importar se aquilo poderia ser

vital para esse outro, não está sendo egoísta — está sendo perverso. Agora, aquele que trata de manter para si o que conquistou, por cuidado, por zelo, por respeito ao próprio esforço, não é ruim. É alguém que entende que a outra pessoa também reúne

condições de conquistar o seu. Isso é autopreservação.


O idiota, no entanto, não se encaixa nem aí. Ele é cego até para as próprias necessidades reais, então não consegue ser nem egoísta de um jeito que o preserve. Ele só reage.

O ponto central, e a grande ironia, é que ninguém existe sozinho. Por mais que o idiota se tranque em sua vida privada, ele está sempre em relação — com ele mesmo e com o mundo. Ignorar essa relação não a elimina; apenas a empobrece, a torna tóxica. Ele

acha que está construindo um muro, mas na verdade está apenas diminuindo o tamanho da sua própria cela.


É divertido, não é? Ler sobre esses personagens e identificar tantos deles ao nosso redor. O vizinho que nunca dá bom dia, o chefe que se acha um deus, o amigo que só fala de si. A gente ri da cegueira, da indiferença, da arrogância. A gente aponta o dedo

e se sente um pouco superior, um pouco mais “político”, no sentido grego da palavra.


Mas talvez a verdadeira sabedoria não esteja em apontar o idiota no outro. Talvez ela comece no exato instante em que a gente para de rir e, num silêncio desconfortável, se pergunta qual dessas camadas, hoje, foi a nossa.



 
 
 

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