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O que te preenche, é realmente seu?

  • Foto do escritor: Aristides Ianelli Junior
    Aristides Ianelli Junior
  • 31 de mai.
  • 6 min de leitura
Uma silhueta humana translúcida, de pé, com uma peneira dourada na altura do peito (como se fosse parte do corpo). De um lado, chegam elementos variados — alguns luminosos, alguns escuros, alguns neutros. A peneira deixa passar o que a pessoa escolhe; o resto escorre para fora. Não é tudo lixo — é que nem tudo é para ela. A escolha é o filtro.
Uma silhueta humana , com uma peneira dourada na altura do peito. De um lado, chegam elementos variados — alguns luminosos, alguns escuros, alguns neutros. A peneira deixa passar o que a pessoa escolhe; o resto escorre para fora.

O que te preenche é realmente seu? 

Por Aristides Ianelli Junior 


Você está preenchido de quê? 

Se você parar por um segundo e olhar para dentro com honestidade, o que vai encontrar aí? Essa é uma daquelas perguntas que a gente evita fazer porque a resposta quase sempre dói no estômago. Dói porque, no fundo, você já sabe. Já sentiu. Aquela sensação de estar carregando algo pesado que não é seu, de estar correndo atrás de algo que nunca quis, de pagar contas que não assinou. Você sente, mas não nomeia. Então vamos nomear. 


Muitas pessoas vão dizer que estão preenchidas pelas suas experiências. Outras vão dizer que se sentem vazias. A primeira certeza é que não somos e nem estamos vazios — nunca. E a segunda é que não são as experiências em si que te constituem. O que te constitui são os resultados que elas deixaram em você — e ainda assim, apenas quando essa experiência foi genuinamente sua, e não algo que você viveu em nome de outro ou por imposição de outro. 


O que nós costumamos chamar de "vazio" não é ausência. É a presença massiva de conteúdo alheio. A pessoa não está vazia, ela está absolutamente cheia do que não é dela. Mas não o vazio em você: o vazio DE você. Quando você olha para dentro à procura de você mesmo, dos seus sonhos genuínos, só encontra um campo árido. Alguém foi lá, esgotou aquela terra, extraiu tudo o que podia, e quando a terra virou areia, foi embora.

 

É aí que mora a questão central: se você não se posiciona, se não escolhe ativamente o que quer que te construa, você será construído com o conteúdo dos outros. E de você mesmo, no fim das contas, só sobra a casca. Porque o que te contém são as expectativas, os sonhos e os desejos alheios. 


O grande problema dessa dinâmica é que, se você permitir, os outros te preenchem exatamente do que eles querem. E a matemática dessa transação é cruel: aquilo que dá resultados doces, eles retiram como dividendos. Os resultados amargos, eles deixam para você. O prejuízo é exclusivamente seu. 


E não se engane achando que quem te preenche é "o sistema", "a sociedade" ou "a família". É sempre alguém. É sempre uma pessoa, ou muitas pessoas com nome e sobrenome. No fim, elas retiram para si somente os dividendos e, de forma perversa, ainda deixam a marca de que "investiram" em você. 

Se o investimento que fizeram em você dá lucro, você ainda se sente grato por ter sido usado. Mas quando dá prejuízo para o outro, muitas vezes você sente até culpa por terem investido em você e saírem frustrados. Não raro, quem sai dessa relação ainda sai te acusando: "se não deu certo, a culpa é sua".

 

Pense nos exemplos práticos do que entra nesse espaço que deveria ser seu: as metas inatingíveis do chefe, as expectativas silenciosas do marido ou da esposa, as demandas intermináveis dos filhos, as opiniões alheias sobre como você deveria viver, o consumo desenfreado para provar um status que não te pertence. 


Essa cessão inconsciente do Eu é a entrega da chave da própria vida. Você guarda a sua joia mais valiosa na gaveta para ser aceito e passa a viver de migalhas. Quem preenche o próprio espaço com os desejos dos outros vive a ilusão de que está no controle, quando na verdade está apenas girando pratos que nem são seus. E quando decide sem pesar os seus próprios valores, vira objeto na vida dos outros — permanentemente à deriva, fazendo papel de burro de carga para quem tem o mapa na mão. 


Para sair disso e, ao olhar para dentro, enxergar algo que valha a visão, você tem que ter o seu próprio querer. Porque aí, quando você paga a conta, foi a conta de algo que você mesmo escolheu. O que realmente dói, o que adoece a alma, é viver a vida de outro, carregar a expectativa de outro, atender à demanda de outro e, no fim, ainda pagar a conta do outro. E para você sobra somente a decepção de algo que você nem sabe o que é.

 

Não se trata de estar indisponível. Existe toda a diferença do mundo entre estar disponível e estar vazio. Eu só estou disponível se eu estiver repleto de mim. Eu não poderia estar disponível para entregar aquilo que eu não tenho. Generoso e prestativo eu posso até ser quando alguém me requisita ou quando eu percebo a necessidade, mas sou EU quem decide me doar, me dispor. Se essa entrega for por assalto, ou de forma inconsciente porque eu não sei colocar limites, isso é puramente um sequestro emocional. Isso destrói completamente o discurso do "se doar" que a sociedade romantiza. Quem se doa sem ter não está doando — está sendo saqueado. Já quem está preenchido de si decide, escolhe com consciência.

 

E não se espante se, quando você começar a escolher o que deixa entrar em si, te confundirem com alguém arrogante, mal-humorado ou mal-educado. A verdade é que, ao recusar o que não quer para si, você acaba fazendo com que o outro se frustre por não ter conseguido tirar de você o que ele desejava. E que fique muito claro: nós não frustramos as pessoas, nem temos esse poder. É a pessoa que se frustra por conta própria, porque foi dela que partiu uma expectativa que ela acreditava ser possível e não foi.

 

O lugar mais difícil de estar é o lugar do outro. Posso até tentar enxergar o seu Eu, mas não consigo saber quais os elementos e resultados de experiências que construíram esse Eu. Quem olha de fora e chama uma atitude firme de arrogância pode simplesmente não saber, ou não querer ver, os elementos duros e trabalhosos que construíram aquela pessoa.

 

E muito importante: ninguém dá o que não tem. E quem tem também não tem a obrigação de dar. Quem valoriza o que conquistou, quem valoriza todo o trabalho árduo que teve para se preencher de si mesmo, não entrega isso de graça a quem não reconhece o peso do que está recebendo. Quem tem consciência do seu próprio valor não entrega a sua energia, o seu tempo e a sua essência a qualquer um. É preciso manter essa dureza sem suavizar o discurso, porque a vida não suaviza a cobrança.


A virada não é um ponto mágico. Não é um estalo de dedos ou uma frase motivacional no espelho ou lida nesses milhares de livros de "autoajuda". É uma decisão profunda de mudança na vida. A partir dessa decisão, você deixa de ser um depósito de lixo alheio e passa a ser abrigo de uma estrutura própria. 

Essa estrutura não surge inabalável só porque você tomou uma decisão — ela vai se construindo e se solidificando à medida que você vai, conscientemente, adicionando elementos próprios. Os resultados das suas próprias experiências — agora sim genuinamente suas — vão tomando os lugares que antes eram usados como sapateiras de sapatos sujos que, além de tudo, apertavam os seus pés e não serviam para você. Esses são os sapatos dos outros...

 

É como passar a se preencher com água nova. A água nova é o que é genuinamente seu. Ela não chega de uma vez, não inunda — ela entra devagar, na medida em que você vai fazendo escolhas próprias, vivendo experiências que são suas, colhendo resultados que te pertencem. E à medida que ela entra, vai naturalmente ocupando o lugar da água velha, parada, apodrecida, que te adoece e te paralisa. Você não precisa lutar contra a água velha, não precisa tirá-la de balde. Você só precisa abrir a torneira da água nova. A velha sai sozinha — porque água parada não resiste a água corrente.

 

Deixe que os seus valores, as suas escolhas e o seu próprio querer lavem o que não te pertence. Quando você estiver transbordando de si mesmo, não haverá mais espaço para o lixo dos outros. E aí, pela primeira vez, quando alguém te perguntar "você está preenchido de quê?" — a resposta vai ser sua.



 
 
 

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