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Além de ser Mãe, quem eu sou?

  • Foto do escritor: Aristides Ianelli Junior
    Aristides Ianelli Junior
  • 17 de mai.
  • 5 min de leitura
Uma Mulher que é mãe, eleva seu filho aos melhores patamares e ainda assim se mantém inteira como Ser.
Uma Mulher que é mãe, eleva seu filho aos melhores patamares e ainda assim se mantém inteira como Ser.

Por Aristides Ianelli Junior

Além de mãe, quem eu sou?

A frase do título já é o problema em si. "Além de mãe, quem sou eu?" — essa pergunta anula tudo o que a mulher É e a coloca como mãe primeiro e ser humano depois.

Mãe não é QUEM ela é. É algo que ela FAZ. Quando a função vira identidade, ela engole o ser.


O ser humano tem vida, sonhos, objetivos, vontades e dores. Quem é "apenas mãe" viverá tudo isso exclusivamente para os seus filhos. Quando os filhos crescem, vencem ou perdem, ela não foi nada; apenas os filhos foram, fizeram, perderam e venceram por intermédio dela.


Ninguém acorda um dia e decide apagar o próprio nome para viver exclusivamente o papel materno. Antes de ser Mãe, sempre existiu a mulher, a filha, a esposa, a amiga, irmã, executiva, jogadora e muitos outros papéis, Mas ACIMA DE TODOS ESSES PAPÉIS antes de ser mãe ela sempre foi ELA.

A coisa acontece aos poucos, como uma erosão silenciosa. A mãe entra no papel e, simplesmente, nunca mais sai. Ela esquece de ser esposa, esquece de ser amiga, esquece de ser ela mesma. Não se permite viver outros papéis. E a tragédia ganha ares de virtude 

porque a sociedade aplaude isso de pé. A sociedade chama essa anulação de "dedicação" e "amor incondicional". Esse é o maior golpe. É a armadilha perfeita, porque a prisão é validada por quem está do lado de fora.


Há também a mãe que é TÃO mãe que sufoca os filhos. Ela impede que sejam eles mesmos. 

Ela resolve tudo, antecipa tudo, protege de tudo, e quando essas crianças crescem, apanham lá fora. O amor que prendeu não protegeu onde seus pés não puderam caminhar junto aos dos filhos. Aqui o que ela via apenas como amor, pela dose excessiva foi o veneno que aleijou os próprios filhos.

Essa mãe, que viveu exclusivamente para ser o escudo e o motor dos filhos, corre o risco de colher o distanciamento deles como fruto. O excesso de zelo asfixia, e quem é asfixiado, na primeira oportunidade de respirar, se afasta. É neste ponto que muita mãe reclama de ingratidão quando na verdade foi ela mesmo que empurrou os filhos para longe na ânsia de uma liberdade ainda não experimentada.


Existe também a mãe que se submete ao que o marido projeta nos filhos e sofre calada. Ela anula não apenas a própria vontade, mas a própria intuição materna, para manter uma estrutura muitas vezes já vivida antes, uma estrutura que a exclui como indivíduo pensante e desejante e também exclui dos filhos a possiblidade de uma vida própria.

Muitas vezes esse comportamento já veio dentro da própria história dela, que teve um pai que fez com quela assumisse seu escritório, sua clínica, seus clientes, seu patrimônio, sem se importar que no fundo aquela sua filha queria apenas existir por ela mesma.


Mas há a mãe que foi presente, que esteve lá em todos os momentos cruciais, e que soube ser ela também. E, justamente por isso, criou filhos mais livres. Ela cumpriu o papel com maestria, mas não se perdeu dentro dele. Ela entendeu a regra clara: vista o crachá, tire o crachá. E apesar de muitas vezes doer muito em si mesma, deixou que os filhos salgassem a própria comida mesmo ela sendo uma excelente cozinheira. Aqui quatro coisas lindas aconteceram: - O filho que salgou a comida aprendeu a medida do sal que ELE MESMO TERÁ QUE POR NO SEU PRATO O RESTO DA VIDA; - O filho percebeu o valor da mãe, E ainda aprendeu que fazer por si pode às vezes dar desconforto mas, especialmente, pode lhe trazer sabores nunca antes sentidos e orgulhar-se disso; - A mãe percebe que fez seu papel. Deu caminho, ensinou, protegeu enquanto ele precisou, e que agora nasceu um ser que faz por si, erra, acerta, aprende e cria ele mesmo a vida que é só dele; - A mãe pode sair do seu papel e voltar a ser ELA, voltar a viver a SUA vida, orgulhosa de ter feito o melhor e de saber que seu filho aprendeu com ela a mesma dinâmica do veste o crachá, tira o crachá.


Assim como o executivo que funde a identidade com o cargo, como conversamos no texto "Retirando o seu crachá, quem sobra?", a mãe que funde a identidade com a função sofre o mesmo destino. Quando os filhos saem de casa, o crachá de mãe em tempo integral cai. E o que sobra? Retirando o seu crachá, quem sobra?


Mas isso tudo nos leva a recletir sobre a "mãe profissional" — aquela cuja vocação genuína é a maternidade. Aquela cujo daimon a chama para isso, como vimos em "Seu Propósito não está à venda". As realizações e os propósitos dela nessa esfera já a alimentam, e isso é maravilhoso. A Mãe Profissional é como o religioso que tem como Vocação servir à Deus e às pessoas através da fé, muitas vezes abrindo mão de prazeres que a sociedade não abriria. E tudo bem ser assim. Aliás o mundo também precisa muito dessas pessoas.


Mas mesmo essa mãe profissional precisa ser ela além de mãe. Não precisa ser empresária, trabalhar fora ou ter uma ocupação específica no mercado para ser alguém além de mãe. O propósito não é uma camisa de força, mas a identidade dela não pode se resumir a cuidar. Se a identidade se resume a isso, voltamos àquela dinâmica de que já falamos no texto "Se você depende, você DEPENDE". O Eu da mãe foi parar no fundo do armário. É a joia na gaveta. Ela se acostumou com a ausência de si mesma. Comprou substitutos, decidiu viver pelos filhos. Até que um dia, se tiver coragem de abrir a gaveta, encontra ali uma mulher que um dia teve sonhos próprios, vontades próprias, medos próprios.


Para algumas, a situação é ainda mais profunda. Pense na mãe que talvez tenha ido direto de filha para mãe, sem nunca ter sido só ela. O ponto de origem pode nem existir na memória dela. Isso é devastador. Como falamos em "Autoconfiança e o Ponto de Origem", 

sem um ponto de ignição, sem uma base de onde partir, a pessoa fica à deriva. Construir o próprio espaço exige saber que esse espaço pode e deve existir.


Aqui, precisamos falar de culpa, mas sem nenhum vitimismo. A mãe que quer algo para si não é egoísta, ela é inteira. Ela pode e deve querer para ela. Querer um tempo, querer um silêncio, querer um projeto, querer apenas não ser solicitada por algumas horas.

O desejo de ser indivíduo não diminui o amor pelos filhos. Pelo contrário. Ser mãe é lindo, é poderoso, e pode, sim, ser uma vocação.


Mas ser mãe não precisa ser o papel dominante vinte e quatro horas por dia até morrer. Quem entende isso não ama menos — ama melhor.


Uma mãe inteira, com suas próprias luzes e sombras, com sua própria vida além da maternidade, cria filhos mais livres. E filhos livres são o maior legado que qualquer Mãe pode deixar.





 
 
 

8 comentários

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Carmen Ianelli
31 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.
  • Uma reflexão necessária, conduzida com sensibilidade e equilíbrio.

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Aristides Ianelli Junior
Aristides Ianelli Junior
31 de mai.
Respondendo a

Muito obrigado pela leitura e o comentário. Para mim, tão difícil quanto criar um filho, é saber o momento de deixá-lo crescer e também da mãe não abdicar da própria existência. Realmente exige sabedoria

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Convidado:
17 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Me identifiquei em uma parte da reflexão

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Aristides Ianelli Junior
Aristides Ianelli Junior
18 de mai.
Respondendo a

Inscreva-se no canal “Na Raiz” no WhatsApp e receberá uma nova reflexão toda semana 😉

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Pollyana
17 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Foi preciso. Parabéns!

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Aristides Ianelli Junior
Aristides Ianelli Junior
20 de mai.
Respondendo a

Muito obrigado Pollyana

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