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A Autoconfiança e o seu Ponto de Origem

  • Foto do escritor: Aristides Ianelli Junior
    Aristides Ianelli Junior
  • 20 de abr.
  • 6 min de leitura
Autoconfiança e seu ponto de origem
A visão e a busca pela auto confiança

Por Aristides Ianelli Junior



Tenho certeza que em muitos momentos da sua vida você ouviu muitas vezes, frases feitas sobre como tudo depende única e exclusivamente de você. O discurso é sedutor e agressivo na mesma medida: "Você não emagrece porque não tem força de vontade." "Você não enriquece porque não acredita em si mesmo." "Você não se desenvolve porque tem uma mentalidade negativa." "Basta querer..."


Esse olhar não é apenas simplista. Ele é perverso.

Quando você reduz o sucesso ou o fracasso de alguém inteiramente à força de vontade interna, você transfere cem por cento da responsabilidade para quem, muitas vezes, já está em desvantagem.

Você culpa a pessoa e absolve todo o entorno. Quem fala isso lava as

mãos com uma frase motivacional e vai dormir tranquilo. Mas quem ouve, e não consegue sair do lugar, cai numa armadilha emocional devastadora: a pessoa começa a acreditar que o problema, de fato, é uma falha de caráter dela. A pouca autoconfiança que já existia,

frágil, é destruída pelo próprio discurso que dizia que ela deveria ser inabalável. A profecia se autocumpre. Você diz para alguém que ele é fraco por não confiar em si mesmo, e ele passa a confiar menos ainda. Então, afinal, onde está a autoconfiança e o seu ponto de origem?


A verdade nua e crua é que a autoconfiança tem dois componentes, e quase ninguém fala do segundo. Existe a capacidade latente, que é interna, e existe o estímulo que a ativa, que é quase sempre externo. Ninguém acorda confiante do nada. Ninguém tira a confiança de dentro de uma cartola num passe de mágica.

Pense numa criança aprendendo a andar de bicicleta. Ela não solta a

rodinha sozinha num belo dia ensolarado. Alguém segurou o banco por trás. Alguém correu do lado suando a camisa. Alguém disse: "Vai, eu tô aqui, pode pedalar." Quando ela finalmente ganha velocidade e pedala sozinha, a confiança parece inteiramente dela. E, naquele momento, é. Mas o ponto de ignição foi externo. Sem aquele empurrão inicial, a capacidade física de pedalar estava lá, mas adormecida. Talvez ficasse adormecida para sempre. É a mesma coisa que olhar para uma semente na terra seca e chamá-la de preguiçosa porque não germinou — sem nunca perguntar se alguém regou.

E aqui entra um detalhe fascinante: o estímulo externo nem sempre é intencional. Ele não precisa vir de alguém que quer ativamente te ensinar algo.


Eu lembro exatamente de como isso aconteceu comigo. Eu tinha doze anos de idade e era um garoto muito inseguro. Naquela época, mudei de colégio e acabei conhecendo um amigo que eu passei a admirar muito. Ele tinha uma característica que me chamava a atenção: um livre trânsito impressionante com todas as pessoas da escola. Ele conversava com o porteiro, com a faxineira, com os professores, com a diretora. Eu também tinha esse trânsito, mas o meu vinha de um lugar diferente. Eu era educado e polido, e as pessoas respondiam à minha educação. Mas esse meu amigo tinha algo a mais. Ele tinha uma

leveza, uma alegria genuína em cada "bom dia", em cada sorriso que dava no corredor. O meu sorriso era envergonhado, contido. O dele era radiante. Eu admirei aquilo. Eu olhei para aquele garoto e pensei: "Eu quero isso para mim."


E o que eu fiz? Comecei imitando. Sem tirar nem pôr. Comecei a imitar a forma como ele cumprimentava as pessoas, a forma como ele sorria. Em casa, que era o meu ambiente seguro, eu arrisquei mais. Comecei a tomar uma postura mais protagonista nas conversas com a minha mãe e com os meus irmãos. É claro que no começo foi desajeitado. Eu tropecei, derrapei, caí algumas vezes. Parecia forçado porque era forçado. Mas, de repente, eu percebi que comecei a colher alguns resultados. As pessoas respondiam diferente. O

ambiente ficava mais leve. Eu vi que valia a pena.

Fui ajustando, corrigindo a rota, adaptando aquele jeito emprestado para a minha própria personalidade. Acabei me tornando um cara comunicativo, e isso abriu portas que a simples educação polida nunca abriria. Abriu espaço para conversas reais, para conhecer

pessoas interessantes, para ganhar mais terreno na vida. Quando eu me dei conta, já tinha construído o meu próprio espaço.


Até hoje eu não sou o modelo de simpatia leve e radiante que aquele meu amigo representava aos doze anos. Mas eu não precisava ser igual a ele. Eu só precisava acionar a naturalidade para avançar além da barreira da educação formal, para conseguir entrar mais

fundo nos assuntos e nos relacionamentos. Isso eu consegui, e é algo que faço hoje com maestria, tanto nos negócios quanto na vida pessoal.


Aquele meu amigo nunca segurou o banco da minha bicicleta. Ele não fazia a menor ideia do que estava se passando na minha cabeça. Mas ele foi o estímulo externo. Foi um estímulo externo involuntário: a pessoa que acende algo em você sem sequer saber que estava segurando um fósforo. O estímulo acende, mas o que cresce a partir dali é seu. Eu não passei a vida copiando o meu amigo. Eu o usei como ponto de partida e construí a minha própria versão de

comunicação e presença. Comecei imitando, sim, mas o que ficou, o que se consolidou, não é imitação. É Aristides. O modelo que você observa no outro não é o seu destino, é apenas o gatilho.

Existe, sim, um ponto crucial em que a pessoa precisa assumir a própria jornada. O estímulo externo acende a faísca, mas quem mantém a chama acesa, quem coloca lenha na fogueira todos os dias, é você.


A questão aqui não é negar a responsabilidade individual. É

reconhecer, com honestidade, que ela não nasce no vácuo. Cobrar responsabilidade e autoconfiança de quem nunca recebeu o menor estímulo inicial é o mesmo que cobrar aconta do restaurante de quem nunca foi convidado para o jantar.

Isso nos leva a uma pergunta muito dura e muito necessária: com quem você anda? Que conteúdo você acessa? O que você lê e escuta?

 

Porque o estímulo externo não é apenas um evento mágico que aconteceu no seu passado, no pátio do colégio. É o que acontece agora, todo santo dia, na sua rotina. Você anda, convive e se relaciona com pessoas que podem te oferecer estímulos para crescer? Se você é sempre o mais inteligente, o mais articulado ou o mais bem-sucedido da mesa, se você não anda com ninguém que faz melhor que você, maior que você, ou pelo menos diferente de você, de onde você vai extrair um novo estímulo? Você não tem o que observar.


Mas a situação pode ser muito pior. Você anda com gente que cresce, que anda para frente, que produz, que age e resolve problemas? Ou você passa a maior parte do seu tempo com quem só reclama, com quem é improdutivo, com quem passa o dia criticando o outro, arrumando desculpa para tudo e apenas reagindo ao que a vida joga no colo?

Preste muita atenção nisso: esses serão os seus estímulos. E os estímulos não levam você apenas na direção da evolução e da virtude. Estímulos podem muito bem eliciar em você comportamentos e autoconfiança para fazer bobagem. Eles podem te dar a segurança

necessária para virar um reclamão profissional, um mestre na arte de dar desculpas, um cínico de primeira linha. A autoconfiança também serve para o mal, quando o ambiente te valida por isso. Portanto, cuidado com o que você está consumindo.


E a via é de mão dupla. Se você absorve, você também emite. Você é o estímulo de alguém. Neste exato momento, você está sendo observado. Pelos seus filhos, pelos seus amigos, pelos seus colaboradores, pelos seus clientes, por quem te segue nas redes sociais. O estímulo que você gera impacta diretamente a vida dessas pessoas, saiba você disso ou não. Como pai ou mãe: o estímulo que você emite dentro de casa vai elevar e dignificar o seu filho, ou vai apequená-lo? Como líder na sua empresa: os seus estímulos diários vão eliciar condutas de produtividade e confiança na sua equipe, ou vão gerar medo e paralisia? Você consegue perceber o tamanho do poder que você tem de influenciar as pessoas a fazer o

que tem que ser feito, apenas pela forma como você age? O que você emite vira matéria-prima para a construção do outro, quer você queira, quer não. A sua conduta é o banco da bicicleta de alguém.



E talvez, apenas talvez, o ciclo se feche exatamente aqui. Talvez o estímulo externo que faltava para quem está lendo este texto seja o próprio texto. Não é preciso que alguém pegue na sua mão e diga o que fazer. Basta que você possa observar alguém de quem queira obter um resultado parecido, igual ou melhor.

Aos doze anos, eu olhei para um garoto no pátio do colégio e vi algo que eu queria ter. Hoje, quem lê estas linhas pode olhar para o que está escrito aqui, reconhecer uma verdade que estava adormecida, e ver algo que quer para si.

Se isso acontecer, o texto cumpriu o seu papel. Ele vira o amigo no pátio da escola. Um estímulo externo involuntário, acendendo uma faísca que, a partir de agora, é inteiramente sua para manter acesa.




 
 
 

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