Retirando o seu crachá, quem sobra?
- Aristides Ianelli Junior
- 25 de abr.
- 7 min de leitura
Atualizado: 4 de mai.

Por Aristides Ianelli Junior
Se você tirar o crachá do pescoço, o cargo da assinatura do e-mail, a placa da porta da sua sala, o sobrenome da família e o estado civil do seu documento, o que sobra? Essa pergunta costuma gerar um silêncio desconfortável na maioria das pessoas. O que sobra é o seu Eu. O Eu é a base de concreto sobre a qual todos os outros papéis se apoiam. É quem você é quando ninguém está olhando, quando não há metas para bater e nem plateia para aplaudir.
O Falso Self e a Realidade Corporativa
O problema é que o mundo lá fora, especialmente o meio corporativo, não tem o menor interesse na sua base de concreto. A empresa não quer saber quem você é na essência; ela quer saber o que você entrega na sexta-feira à tarde. O sistema premia performance, adaptação e resultado. Não premia autenticidade.
Para sobreviver e prosperar nesse ambiente, nós criamos o que o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott chamou de "falso self". Não se assuste com o termo técnico; o conceito é muito prático. O falso self é uma casca, uma persona que você desenvolve para atender às demandas externas. Ele funciona muito bem. É eficiente, educado, sabe o que dizer na reunião de diretoria e entrega os relatórios no prazo. Mas ele não é você.
O falso self é a ferramenta perfeita para lidar com um ambiente que exige de você comportamentos que muitas vezes não são naturais ao seu Eu. A tragédia começa quando você esquece que está usando uma ferramenta e passa a acreditar que você é a ferramenta.
A Armadilha da Identidade
Imagine a cena clássica: um executivo desempenha o seu papel social numa empresa durante anos e manda muito bem. Ele bate todas as metas, recebe bônus e é aplaudido. O que acontece na cabeça dele? Ele passa a acreditar que ele, o seu Eu, é brilhante e infalível. A competência do papel social vaza para dentro da identidade pessoal. Aí esse mesmo executivo muda de empresa. Vai para outro projeto, com outro chefe, outra cultura, exercendo o mesmíssimo papel social. Só que agora, o resultado não vem. O projeto afunda. E o que acontece? Ele se frustra profundamente, entra em crise e atribui o fracasso à sua própria incompetência. Ele trouxe para o seu Eu uma incompetência que não é dele, mas sim daquele papel social, naquele contexto específico.
O erro que ele cometeu no fracasso é exatamente o mesmo erro que cometeu no sucesso: fundir o Eu com o papel. Esse executivo não era competente na primeira empresa. Ele estava competente naquele papel, naquele contexto, com aquela equipe. E agora ele não é incompetente. Ele está sem resultado naquele novo papel.
Quando você não separa quem você é do que você faz, você adoece. O resultado de uma corporação, ou mesmo de um departamento, nunca é obra de um lobo solitário. A pessoa precisa entender que se o mesmo papel social não deu o mesmo resultado em outro lugar, é porque o resultado não depende exclusivamente dela. Depende de um conjunto brutal de fatores estruturais: orçamento, momento de mercado, cultura da empresa e, principalmente, do papel social de outras tantas pessoas que trabalham ali.
O Peso da Expectativa
Se você pesa no seu Eu um resultado que depende da integração de muitos outros fatores, você vai ser esmagado. Você carregará para dentro de si um peso que não é seu, alimentando ainda mais o falso self, que vai tentar se adaptar de forma cada vez mais desesperada para voltar a ser aplaudido.
É exatamente aqui que a gente esbarra naquilo que conversamos no texto "Se você depende, você DEPENDE" (Se você depende, você DEPENDE. A diminuição do Eu em troca da aceitação social). Lembra da gaveta? Lembra daquela dinâmica em que a pessoa vai diminuindo o próprio Eu, guardando a sua essência numa gaveta escura, em troca de aceitação social e pertencimento? O meio corporativo é o maior fiador dessa gaveta. A dependência financeira e de status faz com que a pessoa vista a casca do falso self e tranque o Eu a sete chaves, com medo de que a sua verdadeira essência não seja "adequada" para o ambiente de negócios. Retirando o seu crachá, quem sobra?
O Medo do Eu Nu
E por que as pessoas aceitam isso por tanto tempo? Porque olhar para o Eu nu dá medo. Sem os papéis, sem os resultados do trimestre, sem os títulos em inglês, a pergunta que fica é: "quem sou eu de verdade?" Como muita gente não tem resposta para isso, faz o caminho inverso para fugir da angústia. Em vez de construir os papéis a partir de um Eu sólido, a pessoa tenta construir o seu Eu a partir dos papéis que ocupa.
"Eu sou o diretor de operações." "Eu sou o cara que resolve os problemas impossíveis." "Eu sou a máquina de vendas."
A armadilha está armada. Quando o papel vai bem, o Eu parece ir bem. Quando o papel falha, ou quando a pessoa é demitida, ou quando se aposenta, o Eu desmorona. Desmorona porque não tinha Eu ali — tinha apenas um papel com o nome de Eu colado na testa. A ilusão se autoalimenta até quebrar. E quando quebra, o nome que o mercado dá é burnout, crise de identidade, depressão. É aquela sensação oca, aquele vazio insuportável que aparece justamente no momento em que, olhando de fora, tudo "deveria estar bem".
Você olha para um quadro desses e se pergunta: será que o Eu dessa pessoa é tão pequeno que ela nem percebe a própria existência, precisando criar a ilusão de que ela é os resultados que produz?
A resposta é dura: não é que o Eu seja pequeno. É que ele foi sistematicamente sufocado. Diante disso, a reação mais instintiva seria fugir. Se o mundo corporativo é uma fábrica de falsos self, se a empresa quer engolir a minha essência, então a solução é ficar o mais longe possível disso para manter o meu Eu intacto, certo? Errado.
Não Fuja da Academia
Manter-se isolado do mundo real, numa redoma de vidro, não te dará o ambiente necessário para fortalecer o seu Self. Se você não precisar exercitar, na prática, esse equilíbrio tenso entre o Eu e o Outro, entre o que é seu e o que é da empresa, você vai atrofiar. Seria o mesmo que se recusar a ir à academia porque lá dentro as pessoas cultuam um padrão de corpo que você não deseja para si. Se você ficar em casa, você se protege daquela cultura, mas também não desenvolve os seus próprios músculos.
A estratégia inteligente não é a fuga. É ir à academia, conviver com aquilo que não é o seu objetivo pessoal, respeitar as regras do espaço, entregar os seus compromissos e usar aqueles aparelhos justamente para fortalecer os músculos que você quer e criar a estrutura que você precisa para a sua vida. O meio corporativo é o aparelho de musculação. O aparelho te usa para conseguir resultados e lucros. Você usa o aparelho para conseguir seu salário e suas recompensas. Todos contentes e ao mesmo tempo que você entregou suas metas, também usou o aparelho para se fortalecer.
A Regra do Vestir e Despir
Para que isso funcione, a regra é clara: vista a roupa, tire a roupa.
As empresas não são instituições de caridade e não são a extensão da sua família. Elas têm a finalidade de dar lucro. Elas compram o seu tempo, o seu conhecimento e o seu esforço em troca de dinheiro. Ponto. Para que essa troca aconteça, elas esperam que você desempenhe determinados papéis e entregue determinados resultados.
Se o seu Eu está fortalecido e você sabe quem você é, o processo é simples e higiênico: você acorda, vai lá, veste a roupa (os papéis, as posturas e o status social necessários para cumprir aqueles objetivos), trabalha duro, entrega o que prometeu e, no final do dia, você tira essa roupa. Você pendura o crachá no cabide. Você volta a vestir a sua própria pele, limpa e intacta. É com ela que você vai para casa, senta no chão para brincar com o seu filho, olha nos olhos da sua esposa ou do seu marido, deita a cabeça no travesseiro e dorme tranquilo.
Mas preste muita atenção: para que você consiga vestir e tirar essa roupa sem se contaminar, você precisa escolher muito bem onde vai trabalhar. Não existe separação mágica quando o ambiente corrompe a sua essência. Você precisa trabalhar em algo que não macule os seus princípios inegociáveis, porque se você ferir os seus princípios, você fere o seu Eu de forma irreversível. Não adianta você ser vegano e ir trabalhar no financeiro ou administrativo de um frigorífico imaginando que, no final do dia, vai simplesmente tirar a roupa manchada de sangue e ir embora com o seu Eu intacto.
O que você fez durante o dia maculou quem você é. A dissonância cognitiva vai rasgar a sua mente ao meio, independentemente do seu esforço mental para separar as coisas. Escolher o ambiente que não agrida a sua base de concreto é questão de sobrevivência emocional.
O Empreendedor e Suas Escolhas
E se você é o dono do negócio? Se você é o empreendedor, a dinâmica muda de figura, mas a essência permanece. Por um lado, o seu comprometimento e a sua carga de responsabilidade são infinitamente maiores, porque o negócio é seu. O risco é seu. Mas, por outro lado, você tem nas mãos o ativo mais valioso que existe: a maior liberdade de escolher o que fazer e como fazer. O empreendedor tem a caneta na mão para desenhar a cultura da própria empresa, para decidir se vai criar um moedor de carne humana ou um ambiente onde as pessoas possam vestir e tirar a roupa de forma saudável.
A Vida é Feita de Escolhas
No fim das contas, a vida é feita de escolhas. Essa é a verdade incontornável que a gente tenta driblar o tempo todo, mas que sempre nos alcança na curva. A vida é feita de escolhas. Você escolhe se vai fundir a sua identidade com o seu cargo ou se vai manter a sua base de concreto protegida. Você escolhe se vai usar o meio corporativo como uma academia para fortalecer os seus músculos ou se vai deixar que ele te transforme num falso self oco e assustado. Você escolhe se vai guardar a sua joia na gaveta para ser aceito, como já conversamos antes, ou se vai ter a coragem de bancar quem você é, mesmo que isso custe alguns aplausos no curto prazo.
O sistema sempre vai te oferecer um roteiro pronto, confortável e muito bem remunerado para você esquecer quem é. Aceitar esse roteiro ou escrever o seu próprio é, e sempre será, uma escolha exclusivamente sua.

Fantástico!!