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Os medos que te governam

  • Foto do escritor: Aristides Ianelli Junior
    Aristides Ianelli Junior
  • 4 de abr.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 4 de mai.

O mecanismo dos medos que te governam
O mecanismo dos medos que te governam

Por Aristides Ianelli Junior


Há uma ilusão muito bem-sucedida sobre o controle: a de que ele se impõe pela força. A força cansa, gera resistência, cria mártires. O controle de verdade, aquele que se instala e não sai mais, não usa a força. Ele usa o medo. E aqui está o mecanismo que a maioria das pessoas não enxerga: o medo usado como ferramenta de controle não é o medo de quem te controla. É o medo daquilo que ele diz que vai acontecer com você se você não obedecer.


Quem define o perigo, governa. Se eu consigo te convencer de que o mundo lá fora é uma ameaça que só eu posso afastar, ou que você dependa de mim para te conectar com alguma entidade mística que te defenda, ou que existe uma punição terrível esperando por você caso saia da linha que eu tracei, eu não preciso te prender. Você mesmo constrói a sua cela e me entrega a chave por gratidão. Esse é

o mecanismo dos medos que te governam. E ele opera em todos os territórios da nossa vida, vestido com roupas diferentes, mas sempre com a mesma lógica.



Os arquitetos do medo


Eles estão em todo lugar. Não têm cara de vilões. Muitas vezes, têm cara de cuidado, de zelo, de amor, de autoridade moral ou espiritual. E é justamente por isso que a gente demora tanto para perceber que a casa que eles construíram para nos proteger virou uma prisão.


Pense na figura de fé que usa o castigo como argumento. Existe uma fé que liberta, que confia na capacidade do ser humano de crescer, de olhar para cima e caminhar. E existe uma fé que aprisiona, que precisa do medo para manter a plateia sentada. É aquela ideia perversa de que quem age de forma errada em uma vida será punido

na próxima, nascendo em condição de sofrimento para “aprender”. Eu discordo frontalmente disso. Se há evolução da alma, ela se dá pelo exemplo, pela consciência e pela capacidade de fazer melhor, não pelo castigo. A minha concepção é a de um Deus bom, que não castiga, que não tem um caderninho de anotações esperando você tropeçar. Ele te dá mais oportunidades de fazer melhor.

A teologia do medo não quer te salvar do inferno; ela quer te governar aqui na terra.


Mas antes do altar, olhe para mais perto. Olhe para os seus pais. A mãe possessiva e controladora coloca o filho numa redoma de cristal: brilha por fora, parece proteção, mas por dentro é uma fonte devoradora do Eu e da individualidade. O filho cresce sem aprender a lidar com o mundo real porque ela sempre esteve entre

ele e o mundo. Cada decisão tomada por ele, cada risco evitado por ele, cada conflito resolvido por ela antes que ele pudesse sequer sentir o desconforto. O resultado é um adulto que não confia na própria capacidade de enfrentar nada sozinho — porque nunca precisou. E na outra ponta, o pai que apequena o filho a cada erro, a cada derrota, sob o pretexto de que homem tem que ser forte, que não pode chorar, que não pode falhar. Cada comentário desses é uma fivela apertada. O resultado é um adulto que não sabe lidar com fracasso, que esconde vulnerabilidade debaixo de camadas de rigidez, que confunde dureza com força. Uma prisão construída tijolo a tijolo com as mãos de quem mais deveria proteger. Os dois — a redoma e a fivela — são formas de medo instaladas por amor torto.


Desça mais um degrau. Olhe para o parceiro ciumento e dominador. Ele transforma o amor em vigilância contínua. O ciúme é sempre apresentado como excesso de cuidado — “eu só me preocupo com você”, “eu tenho medo de te perder”. Mas o mecanismo é implacável: você passa a se comportar, a medir palavras, a evitar lugares, a cortar amizades, tudo para não acionar o medo do outro. E, no processo,

vai cedendo pedaços inteiros do seu Eu. Você não percebe que está sendo controlado achando que está sendo amado.


No trabalho, o arquiteto do medo veste terno. É o chefe que te mantém útil, mas nunca te deixa crescer. Ele pode agir por insegurança — o medo inconsciente de que você o supere — ou por cálculo frio, sabendo exatamente que te manter pequeno garante que você não peça aumento nem procure outra empresa. Os dois são danosos. O que age por ignorância destrói a equipe sem querer; o que age com consciência destrói você de propósito.


E há, claro, o amigo possessivo. Aquele que chama de lealdade o que, na verdade, é dependência. Ele usa a culpa como ferramenta de estimação. Um “depois de tudo que fiz por você” dito na hora certa é o suficiente para te paralisar. O medo, aqui, é o de parecer ingrato, de ser o vilão da história que ele conta para si mesmo.



A escala da intenção


Há uma diferença fundamental entre quem faz isso por ignorância e quem faz por intenção. A mãe que superprotege o filho até sufocá-lo age por ignorância; ela acha que está amando. O estrago é real, mas não há malícia. Mas quem age com consciência e intenção está em outra categoria. É o mais perigoso de todos. Ele frequenta a sua intimidade, descobre onde dói, mapeia as suas inseguranças e te usa sistematicamente. E o golpe de mestre: quando ele vai embora, ou quando você finalmente consegue se afastar, ele deixa tudo arranjado

para que você fique convicto de que o problema era você. Esses são os idiotas que se sobrepõem, aqueles que acreditam que o mundo existe para servi-los (como escrevi no texto “O Silêncio dos Idiotas”)leia aqui: O Silêncio dos Idiotas.



A marca na pele


A marca que esse controle deixa não é visível. É uma dor surda, uma sensação crônica de ser pequeno, insuficiente, limitado. Mas preste atenção: esse limite não é seu. Ele foi construído pelo outro, tijolo a tijolo, com paciência, até que você acreditasse que aquelas paredes eram o tamanho natural do seu mundo. Lembra da joia na gaveta, sobre a qual falei no texto “Se você depende, você DEPENDE” (leia aqui: Se você depende...)? O seu Eu não sumiu. Ele foi encolhido e guardado para que o medo do outro pudesse ocupar o espaço inteiro da sala. Se você se reconhece aqui, precisa entender uma coisa com urgência: o que você sente como uma limitação irremediável sua pode ser apenas uma limitação que foi instalada em você. O medo que você sente de ousar, de falar, de sair, de mudar… talvez nem seja seu. Talvez seja um software pirata rodando no seu sistema.



O alerta antes da caça às bruxas



Mas antes de você sair apontando o dedo e identificando vilões na sua família, no seu casamento ou no seu trabalho, um alerta de sanidade: cuidado com a projeção.

A nossa mente é especialista em encontrar desculpas fora para não enfrentar os problemas de dentro. Você pode estar enxergando manipulação calculada onde há apenas a limitação humana de quem não sabe fazer melhor.


Para não correr o risco de criar preconceitos que podem nem ser reais sobre as pessoas que convivem com você, não tente resolver isso sozinho lendo meia dúzia de textos na internet. Busque um psicólogo. E aqui eu friso: um psicólogo com formação real. Fuja de terapeutas sem formação em psicologia que prometem resultados em tempo recorde. Fuja dos místicos, das soluções mágicas, das curas

imediatas. Essas armadilhas superficiais não só não resolvem, como podem aprofundar o problema, criando novas dependências. (Se quiser entender melhor essa dinâmica de anulação e cegueira, recomendo a leitura de “O Silêncio dos Idiotas” e “Se você depende, você DEPENDE”).



O caminho de volta


Reconstruir o seu Eu não exige que você destrua quem te formou ou quem te controlou. Esse é o erro mais comum de quem desperta: achar que a libertação exige vingança. Ferir o outro seria se equiparar a ele. Seria usar as mesmas ferramentas que te adoeceram.


A libertação é um processo interno. Volto à concepção de Deus que mencionei no início: um Deus bom, que dá mais oportunidades, que não opera na lógica do castigo. A mesma lógica se aplica aqui. Você não precisa punir ninguém para se libertar. Você não precisa que o outro reconheça o mal que fez para que você possa seguir em frente. A sua liberdade não depende da confissão de culpa do seu carcereiro.


Mas há algo prático que precisa ser dito: afaste-se dessas pessoas

o quanto for possível. A presença delas é tóxica e contamina o ar que você respira, tornando a libertação muito mais trabalhosa. Continuar perto é dar a oportunidade de que elas apertem de novo as fivelas que você começou a soltar. Cada fivela que você solta, você respira melhor, pensa melhor, enxerga caminhos que antes pareciam não existir. Se for impossível se afastar completamente — e às vezes é — reduza ao máximo a exposição. Fale menos. Não conte nada seu ou que possa ser usado contra você.

Aplique um filtro em cada palavra e em cada ação que vier dessa pessoa. Não é paranoia. É sobrevivência consciente.


O caminho de volta é tomar posse do que é seu. É olhar para o medo que te paralisa e perguntar: “Isso é meu, ou me disseram que era meu?”. É abrir a gaveta, pegar a joia de volta, espanar a poeira e colocá-la no centro da sala. Vai dar trabalho. Vai incomodar quem estava acostumado com o seu silêncio. Mas a única alternativa a

esse trabalho é passar a vida inteira pagando aluguel para morar dentro de si mesmo.



 
 
 

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Andréia Franco
06 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

sensacional e libertador

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