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Image by Klara Kulikova

Se você depende, você DEPENDE. A diminuição do Eu em troca da aceitação social.

  • Foto do escritor: Aristides Ianelli Junior
    Aristides Ianelli Junior
  • há 3 dias
  • 6 min de leitura
O seu Eu permanece vivo mesmo quando sua individualidade se desvanece
O seu Eu permanece vivo mesmo quando sua indivivualidade se desvanece

O Eu e a individualidade


Vamos começar com o básico, porque é justamente o básico que a gente mais ignora: o que é o “Eu”? Não estou falando de filosofia complicada, de conceitos que precisam de dicionário para serem entendidos. Estou falando daquela voz aí dentro que, quando tudo dá errado, quando o mundo desaba, quando os aplausos cessam e os holofotes apagam, é a única que sobra. É o seu centro de gravidade. É o protagonista da sua história — não o coadjuvante da história dos outros.


Ter essa clareza, ter o Eu como personagem principal da própria vida, não a tornará mais simples. A vida continuará sendo dura, imprevisível. Mas ela se torna compreensível. Porque mesmo no caos, você sabe quem está vivendo aquilo. Você não se perde de si mesmo. Você sofre, mas sabe por que sofre. Erra, mas reconhece o erro como seu. E isso, por mais simples que pareça, é raro. Porque a gente passa a vida inteira aprendendo, com uma eficiência impressionante.



As armadilhas do caminho


Ninguém acorda um dia e decide entregar a chave da própria vida para os outros. A coisa é mais sutil do que isso. É um gotejamento. Uma erosão lenta que vai corroendo a rocha sem que ela perceba. E aqui está o ponto central, a mudança de perspectiva que muda tudo: ninguém tem o poder de nos invalidar. Somos sempre nós que cedemos o nosso Eu. Nós que, gota a gota, abrimos mão de quem somos.


Essa cessão pode ser consciente ou inconsciente. A cessão consciente é quase uma estratégia. Você sabe que está se anulando, mas faz isso por um objetivo maior: manter o emprego enquanto procura outro, evitar um conflito perigoso para sair de um ambiente com segurança, agradar um cliente para fechar um negócio. É menos grave porque, sendo uma decisão, você pode interrompê-la quando quiser. O problema real, o que nos adoece, é a cessão inconsciente. É quando você cede sem perceber, acreditando genuinamente que aquilo é o melhor para sua vida, que aquele é o único caminho. É um condicionamento tão profundo que você passa a interpretar a própria anulação como algo natural, ou até positivo.



A pressão que vem de fora


Mas essa cessão não acontece no vácuo. Ela é uma resposta à pressão que vem de fora. E essa pressão costuma vir de três tipos de pessoas, três personagens que descrevi em detalhes no texto “O Silêncio dos Idiotas” (leia aqui:O Silêncio dos Idiotas )


O primeiro é o que te invalida por ignorância. Ele não percebe o que faz. Foi formado assim, só reproduz o que aprendeu. São os pais que, na tentativa de proteger, acabam podando os sonhos dos filhos. Não há maldade, há limitação.


O segundo é o que te invalida porque simplesmente não te enxerga. Para ele, você não existe como indivíduo. É uma peça no tabuleiro dele, um recurso, uma função. Você só é notado quando deixa de servir. O comportamento é perverso por si só, mesmo que não haja uma intenção declarada de prejudicar.


O terceiro, e mais perigoso, é o que te invalida com consciência e objetivo. Ele sabe o que faz. Ele te diminui para se sentir grande. Ele te mantém dependente porque isso o alimenta. É sistemático, é calculado.


Mas — e isso é fundamental — nenhum dos três tem o poder de invalidar o seu Eu. Eles criam a pressão. Eles montam o cenário. Mas a responsabilidade e a decisão de se diminuir, de entregar a própria chave... essa é sempre sua, mesmo que muitas vezes de forma inconsciente.


É por isso que o título deste texto não é provocação vazia. Se você depende do emprego, do cheque no final do mês, você DEPENDE, do humor do chefe, da aprovação do ambiente. E tenderá a se anular por isso. Se você depende da aprovação do seu companheiro ou companheira, você DEPENDE — e passará a vida se colocando em segundo, terceiro plano, moldando cada palavra, cada reação, cada escolha pelas expectativas do outro. A dependência não é neutra. Ela tem preço. E o preço é o seu Eu.



A fotografia do Eu diminuído


E quem é você depois de anos nesse processo? É uma fotografia interessante, se não fosse trágica. Por fora, tudo parece funcionar. Você é um bom filho, um bom marido, uma boa mãe, um bom funcionário. Você atende as expectativas, cumpre os papéis, paga as contas, aparece nas festas, dá os parabéns na hora certa. Mas quando se olha no espelho — nos raros momentos em que realmente se olha — não se reconhece. Há um estranho ali. Um ator competente que decorou todas as falas, que recebe aplausos, mas que esqueceu quem ele é quando as cortinas se fecham. Você perdeu o fio de volta para si mesmo. Sabe o caminho para todos os lugares — o trabalho, a escola dos filhos, o supermercado, a casa dos outros — menos para a sua própria casa interior.



O Eu que vai para a gaveta


O seu Eu não morre. Isso é importante entender. Ele não evapora, não se dissolve. Ele vai para a gaveta. É como aquela peça que você amava — não importa se era uma roupa, um instrumento, um caderno de desenhos, um sonho. No começo, quando ela foi para o fundo do armário, você sentiu falta. Procurou. Tentou encaixá-la de volta na rotina. Mas a rotina não tinha mais espaço. Então você foi se acostumando com a ausência. Comprou substitutos. Se moldou a outros formatos. Cada vez menos se lembrava daquela peça. Até que um dia, arrumando o armário da vida, você a encontra no fundo da gaveta. E por um instante, não sente nada. Ela virou só um objeto. Você nem lembra mais da sensação de usá-la, do que ela representava, do que você era quando ela fazia parte de você. Só sabe que um dia aquilo foi importante. Mas não consegue mais dizer por quê.


Com o Eu é a mesma coisa. A gente o guarda para não incomodar, para não criar atrito, para caber no molde. E de tanto não usar, esquece o valor que ele tem. Esquece que ele existe.



A falta sem nome


Mas a ausência dele grita. Grita de um jeito estranho, porque não tem palavras. É uma inquietação que não se explica, uma insatisfação que não tem endereço. E como você não sabe mais o que está faltando, tenta preencher o buraco com qualquer coisa que o mundo oferece. Você compra o carro do ano. Busca a promoção. Troca de parceiro. Viaja. Enche a agenda de compromissos para não ter tempo de ficar sozinho — porque ficar sozinho é ficar com aquele estranho do espelho, e isso incomoda.


Cada conquista dá um alívio momentâneo, uma sensação de “agora vai”. Mas a sensação passa. E o vazio volta, maior, mais fundo, mais silencioso. Porque o buraco não é do tamanho de um carro, de um cargo ou de um relacionamento novo. O buraco tem o formato exato do seu Eu. E nenhuma peça de fora, por mais brilhante que seja, vai encaixar ali. É como tentar tampar um poço com tampas de panela. Você pode empilhar quantas quiser. O poço continua aberto.



A joia esquecida


Mas a peça original está lá. Na gaveta empoeirada da sua alma, debaixo de camadas de expectativas alheias, de medos acumulados, de papéis que você vestiu para agradar. Ela não apodrece. Não perde o valor. Pelo contrário. É a joia mais valiosa da sua vida. A única que é verdadeiramente, irrevogavelmente sua. E você a relegou a um cantinho escuro que ninguém vê — nem você mesmo enxerga mais. Você passa a vida procurando tesouros lá fora, cavando em terrenos alheios, sem perceber que o mapa da sua maior riqueza sempre esteve no bolso e que o tesouro está enterrado dentro de casa.



O caminho de volta


O caminho de volta é trabalhoso, mas não é complicado. Ele começa com uma decisão que parece pequena mas é revolucionária: parar de procurar fora o que só existe dentro. É ter a coragem de abrir a gaveta. Vai doer. Você vai encontrar um Eu empoeirado, talvez com cheiro de mofo. Vai ter que tirar de cima dele um monte de tralha que não é sua: as expectativas dos seus pais, as mágoas de um antigo amor, as frustrações do seu chefe, as regras sociais que você engoliu sem mastigar, os medos que nem são seus mas que você carrega como se fossem.


É um trabalho de arqueologia. Camada por camada. Sem pressa, mas sem pausa. E quando você finalmente o tira de lá, quando o limpa e o coloca contra a luz, acontece algo que nenhuma conquista externa jamais proporcionou. Ele ainda brilha. E, pela primeira vez em muito tempo, você se reconhece.


E percebe que a dependência não era uma necessidade. Era só um mau hábito. E que a única aprovação que realmente importa é a daquela voz que, finalmente, voltou a ser a protagonista da sua própria história.


Você está mais perto de reencontrar o seu Eu do que imagina. Busque se reconectar com aquilo que te transcende — chame de Deus, de espiritualidade, de propósito, de fé. Não importa o nome que você dá. Importa que exista algo maior do que o ego que você construiu para agradar o mundo. Essa reconexão não resolve tudo, mas abre a porta. E se precisar de ajuda para percorrer esse caminho, busque um psicólogo. Fuja das armadilhas místicas, mágicas e imediatas — nada superficial será capaz de te provocar com responsabilidade na busca do seu Eu.



 
 
 

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