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A Pobreza da Multiplicação - O Mecanismo Perverso do Desejo e a Ilusão do Controle

  • Foto do escritor: Aristides Ianelli Junior
    Aristides Ianelli Junior
  • 2 de mai.
  • 6 min de leitura
Um prato simples que alimenta e um banquete apodrecido que adoece
Um prato simples que alimenta e um banquete apodrecido que adoece

Por Aristides Ianelli Junior


"A pobreza não vem da diminuição das riquezas, mas da multiplicação dos desejos." Quando Platão nos entregou essa reflexão, nos deu em palavras simples algo que deveríamos aprender no início da vida.


Esse conhecimento é uma lanterna poderosa que pode clarear uma porção muito importante da nossa alma. Estou falando daquela porção que parece superficial quando se trata de consumir em excesso, de se desejar ter mais do que precisa, mas que se revela  assustadoramente profunda quando percebemos que podemos estar lidando com uma escada de fuga capaz de te levar tão fundo, que você para de ver a luz real da vida e de uma existência rica mas simples.


Vivemos em uma época que se romantiza que o motor inquestionável de uma vida bem sucedida é a busca incessante por mais — mais metas batidas, mais reconhecimento, mais objetos, mais experiências, mais status. No entanto, o que a multiplicação desenfreada dos desejos realmente produz não é a  abundância, mas um estado perpétuo de carência. Cada novo desejo inventado é uma nova ausência instalada dentro de nós. E o paradoxo é: quanto mais tentamos preencher esse vazio com as promessas do mercado, mais ele se expande, consumindo nossa energia, nosso tempo e a nossa própria essência.


Para compreender essa engrenagem, é preciso olhar de frente para a própria natureza do desejar. Como bem aponta o professor Clóvis de Barros Filho, o desejo é, por definição, filho da falta. Você só deseja aquilo que não tem. É a ausência que acende o querer. No exato momento em que o objeto do desejo é alcançado, o desejo morre. Ele não sobrevive à posse.


E o que acontece em seguida? O vazio retorna, exigindo ser preenchido por um novo objeto, uma nova meta. É um ciclo infinito, uma esteira ergométrica onde se corre até a exaustão sem nunca sair do lugar.


O mercado compreendeu essa dinâmica com perfeição e a transformou no motor da nossa economia e da nossa identidade. Hoje, você não compra simplesmente um objeto por sua utilidade; você compra a identidade atrelada a ele. Você adquire a pessoa que acredita que 

se tornará ao possuir aquele carro, vestir aquela marca ou frequentar aquele ambiente.


O problema é que essa nova identidade tem prazo de validade curtíssimo. Quando a novidade se desgasta e você "é" aquilo por pouco tempo, a sensação de incompletude volta. É preciso, então, do próximo desejo para continuar existindo aos próprios olhos e aos 

dos outros. O consumo torna-se um atestado de existência.


E esse mecanismo não opera apenas nas vitrines e nos cartões de crédito. Ele opera dentro das empresas, dentro das relações de poder. Gestores perversos aprenderam a usar essa mesma engrenagem: vendem suas metas como se fossem as suas. Se você não sabe bem 

quem é, se o seu Eu está frágil ou adormecido, você compra as metas deles como se fossem genuinamente suas. Trabalha cegamente para cumpri-las, sente orgulho quando bate o número, sente vergonha quando não bate. E aqui está a armadilha mais cruel: chega um ponto em que eles nem precisam mais vender. Somos nós que as desejamos, que as compramos e que trabalhamos incansavelmente para cumpri-las.

A dependência se instala de forma silenciosa — passamos a existir em função de atender aos interesses dos outros, achando que são os nossos. Parece loucura, mas é exatamente assim que funciona.


Há uma ilusão perigosa embutida na multiplicação dos desejos: a crença de que estamos no controle. Na realidade, cada desejo novo que abraçamos é uma tentativa desesperada de controlar mais um pedaço da realidade, de garantir que a vida siga o roteiro exato das nossas expectativas. Imagine um equilibrista de circo girando pratos em hastes finas. Cada prato é um desejo: o carro do ano, a casa de praia, o corpo esculpido, a viagem instagramável, a aprovação social.


Cada novo prato que entra na roda exige atenção constante, energia, tempo e dinheiro. A pessoa fica tão absurdamente ocupada mantendo 

todos esses pratos no ar, correndo para que nenhum caia e se estilhace, que não sobra absolutamente nada dela para simplesmente viver. A vida passa a ser a manutenção da estrutura, não a experiência em si.


A pobreza de Platão, nesse contexto, revela sua face mais cruel: não é apenas a pobreza financeira de quem se endivida para sustentar uma imagem, mas a pobreza de presença, de leveza, de simplicidade. É a miséria de não ter tempo para o agora, porque a mente está sempre alienada ao próximo desejo.


O aspecto mais trágico dessa dinâmica é que a esmagadora maioria das pessoas não faz ideia de que está presa nesse ciclo. Não se trata de uma escolha consciente de fugir de si mesmo; é um estado de anestesia, de piloto automático. Acelerar, comprar, conquistar e 

exibir parecem ser os sintomas de uma "vida funcionando". A sociedade aplaude o acumulador, valida o workaholic e inveja o consumidor ostensivo. Não há dor aparente na superfície, porque a fuga é tão eficiente e barulhenta que a pessoa nem sequer percebe do que está fugindo.


O silêncio, que seria o espaço para o confronto com a própria verdade, é preenchido pelo ruído constante do próximo desejo. Quando não há pausa, não há questionamento. A vida se torna uma sequência de reações a estímulos externos, onde os passos são ditados pelos algoritmos e vitrines.


A pessoa trabalha até sem saúde, engole o que lhe vendem como necessário, valida o que não importa, e depois se pergunta em qual esquina perdeu sua saúde, seu dinheiro, sua dignidade, seu Eu. E chama isso de sucesso.


Se descermos às raízes desse comportamento, veremos que o consumo excessivo e a busca por status são, frequentemente, mecanismos de compensação. Tentamos construir uma Persona — uma máscara social — tão brilhante e imponente que seja capaz de ofuscar o vazio interno.


No entanto, quando a pessoa tem a coragem de olhar para dentro, de se conhecer de verdade e integrar essas partes ocultas, os desejos supérfluos diminuem naturalmente. A necessidade de provar valor através de coisas evapora. Em outra instância, o mercado condiciona nosso comportamento. Às vezes, uma compra realmente entrega um pico de prazer, uma dose rápida de dopamina. Muitas outras vezes, 

entrega apenas frustração e boletos. Mas como às vezes a recompensa vem, o cérebro continua buscando, apertando o botão, passando o cartão de crédito.


A pessoa que não consegue parar de desejar e consumir não é necessariamente fraca; ela está profundamente condicionada por um sistema projetado por mentes brilhantes cujo único objetivo é mantê-la insatisfeita.


Diante desse diagnóstico, a reação instintiva de muitos é pular para o extremo oposto: a negação total do desejo. A privação, a crença de que querer qualquer coisa é um erro. Mas a saída não é não desejar nada. O desejo é a força vital que nos move. A verdadeira libertação consiste em desejar o que é genuinamente seu, e não o que te venderam como uma necessidade imperativa.


Trata-se de limpar a lente, de separar o joio do trigo existencial.

Quando você se conhece, quando aceita o seu tamanho real — com suas potências e limitações —, os desejos se apequenam. Eles deixam de ser pilares para o ego. Você para de querer o que não é seu. Para de desejar a vida editada do outro. Entender que "fazer o que 

dá com o que tem" não é um atestado de conformismo ou mediocridade.

Pelo contrário: é o ápice da lucidez. É a aceitação madura da realidade que permite que você invista sua energia naquilo que realmente importa e que está ao seu alcance.


A essência é, por natureza, simples. Ela não precisa de adornos excessivos, de justificativas complexas ou de uma montanha de objetos para se afirmar. Uma vida cheia de artifícios, desenhada para manter tudo sob um controle ilusório, é o exato oposto de uma vida essencial.


A simplicidade, portanto, não deve ser confundida com pobreza, escassez ou falta de ambição. A simplicidade é o destino daqueles que já se perderam no labirinto do excesso e encontraram o caminho de volta. É a riqueza absoluta de quem não precisa de mais nada 

para ser quem é. O homem simples não é aquele que não possui nada, mas aquele que não é possuído por nada. Ele caminha leve, porque não carrega o peso das expectativas alheias nem a bagagem de

desejos artificiais.


Ao reduzir a quantidade de pratos que precisa manter girando, ele recupera a coisa mais valiosa que existe: a si mesmo. Ele ganha espaço interno. Ganha tempo. Ganha a capacidade de estar presente na própria vida, desfrutando da jornada sem a ansiedade constante da próxima linha de chegada.


A reflexão que se impõe não é confortável, mas é inadiável. Convido você a olhar para a sua própria vida, para as suas metas e para a sua agenda lotada. Quantos dos seus desejos são realmente seus? Quantos nasceram da sua alma, da sua vocação, da sua verdadeira 

necessidade? E quantos foram cuidadosamente plantados na sua mente por alguém que lucra, financeira ou emocionalmente, com a sua insatisfação crônica?


A pobreza mais perigosa que nos ameaça não é a do bolso, que pode

ser revertida com trabalho. A miséria mais profunda é a de quem não sabe mais o que quer de verdade, porque passou a vida inteira desejando os desejos dos outros.


Retomar as rédeas do próprio desejo é o primeiro passo para sair da esteira e voltar a caminhar em terra firme.


A escolha é clara: Ou você simplifica seus desejos e vive em paz, ou os multiplica e se torna escravo deles. Essa é a riqueza na simplicidade.




 
 
 

6 comentários

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Convidado:
04 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

😍

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Aristides Ianelli Junior
Aristides Ianelli Junior
04 de mai.
Respondendo a

Fico feliz que a leitura tenha agradado!

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Karla
04 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que riqueza de reflexão!

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Aristides Ianelli Junior
Aristides Ianelli Junior
04 de mai.
Respondendo a

Muito obrigado pela leitura Karla. Fico feliz que tenha encontrado ressonância!

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Henrique de Almeida Faria
03 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Aristóteles da Atualidade 👏

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Aristides Ianelli Junior
Aristides Ianelli Junior
04 de mai.
Respondendo a

Muito obrigado por ler meu querido. Quanto ao elogio eu agradeço mas ele não cabe porque apenas consigo relatar com algumas palavras mais simples e com meus exemplos na vida, o que grandes mentes desenvolveram algum dia e que eu ainda estou no caminho de aprendê-las

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